“Modern man cannot believe too steadfastly, but not because he does not wish to believe. Another firm devotion demands that he adhere to a certain falsity, just enough to give breathing room to the imagination, which otherwise would remain oppressed and nearly suffocated in a dense substance. All the Modern lies in that gentle separation from the background, in that tiny disjunction, in that imperceptible aperture that allows the void to circulate, in that unreal knife-edge that now separates every faith, every passion from itself.” Roberto Calasso, The Ruin of Kasch Estamos no atelier de Rodrigo Rosa, no centro de Lisboa. O frio da rua contrasta com o calor das obras dispostas no espaço. Trabalhos finalizados, outros numa espécie de limbo: objectos em vias de apropriação com dimensões várias; artefactos oferecidos por amigos e familiares; “recolhas” de efemeridades pela mão do artista daquilo que atravessa o seu percurso e, naturalmente, o seu olhar. Pedaços de “memórias” da cidade, dos afectos da paisagem. Também há telas a meio caminho, passíveis de novos retoques, entre o acaso e o acabamento. Rodrigo fala-me de tudo isto enquanto esboça num papel a sua nova instalação para o Project Room da Associação 289, em Faro. Trata-se de um objecto de confecção simples, uma “recriação”. Nas suas deambulações por Tavira, cidade de onde é natural, o artista recorda o mecanismo usado em obras para levar blocos de betão aos andares mais elevados das construções. Nesta evocação (e posterior adaptação para o espaço expositivo da 289), mais do que um olhar curioso sobre o dispositivo que envolve pesados volumes em paletes, encontra-se um prenúncio que têm vindo a revelar-se no seu jovem percurso: o que as construções potenciam, ou podem potenciar, na paisagem e no modo como os espaços são vivenciados? Esta inclinação natural e pesar sobre a dinâmica urbana é perceptível em Rodrigo Rosa. Na verdade, é um hábito de criança passear pela cidade. As suas primeiras memórias são de uma Tavira em total renovação; o seu parque infantil em obras, fechado por mais de dois anos. Dessa forma, se a prática artística de Rodrigo se desenrola nestes encontros e reminiscências - sem linhas temporais concretas e logo conjugadas em diferentes técnicas - também o fascínio pela singularidade da experiência estética se confunde com uma visão melancólica. Melancólica no sentido de ser pensativo, aquele que possui uma sensibilidade especial perante a esfinge do mundo, que interroga o destino e carrega estoicamente um tormento poupado aos comuns mortais, como trata Diogo Seixas Lopes em Melancolia e Arquitectura em Aldo Rossi (2016). Nesta leitura, à luz da obra de Rossi, a melancolia converteu-se numa forma própria “de consciência” que podia “ser relacionada com as actividades de um indivíduo, nomeadamente, com o moldar da realidade” e, simultaneamente, abarcava a dolorosa constatação da impotência da arquitectura num mundo “sem heróis”, entre destroços morais e materiais de duas guerras, e uma Europa em ruínas que, aos poucos, se tentava reconstruir. Nesta nota, a sua instalação na 289, confronta-nos com objecto e ambivalência que enuncia. O nome Deadlift, numa tradução livre “levantamento de peso morto” ou “morte elevada”, provém da categoria olímpica de Halterofilismo, o movimento de tirar um peso do chão até o corpo ficar totalmente vertical. Tal como o artista que navega veemente ora entre os lugares físicos e psicológicos das suas afeições, ora sem destino, estará aqui latente a vontade de trespassar o tom melancólico com a sua glorificação, de o elevar? O peso é ilusório. É a simulação dos materiais, o falso bloco de betão. É o jogo das palavras, a metáfora que se dá a conhecer nas entrelinhas, a memória que atraiçoa. Ou tratar-se-á de um peso invisível, simbólico, daqueles que caminham na cidade e “carregam” a inquietação? Carolina Trigueiros  Rodrigo Rosa: Deadlift Rodrigo Rosa (Tavira, 1997), artista plástico licenciado em Artes Visuais pela Universidade do Algarve em 2018, reside e trabalha actualmente em Lisboa. Desde 2017 que tem vindo a expor regularmente em Portugal, alcançando representação em diversas colecções públicas e privadas. Destacam-se os projectos individuais Dreamhouse (Travessa da Ermida, 2018, curadoria de Sandro Resende) e Unknown Structures/ Unnamed Spaces (Galeria Foco, 2018), e a sua presença na exposição colectiva I Will Take The Risk (Tomaz Hipólito Studio, 2019, um projecto de Carolina Trigueiros e Tomaz Hipólito). Em 2017 foi representado na categoria de Artes Plásticas do Prémio Jovens Criadores (IPDJ & CPAI), e em 2019 na fase final do Prémio Millenium Arte Jovem (Carpediem Arte e Pesquisa). Deadlift é o seu mais recente projecto a individual, que vai ser apresentado no novo Project Room da Associação 289. Especialmente concebido para este espaço tão específico, esta instalação escultórica, além de um desenvolvimento da investigação do artista sobre as permeabilidades da paisagem, vem a intensificar a relação do espectador com o espaço.